quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Uso do Telefone Celular Aumenta os Riscos de Câncer, tradução da entrevista do Dr. Dariusz Leszczynski



Esta é a tradução de uma entrevista de suma importância para quem está interessado no debate sobre os possíveis efeitos dos campos eletromagnéticos gerados por telefones celulares e estações rádio base de telefonia sobre a saúde humana. A tradução da entrevista foi realizada pelo engenheiro Ricardo Luiz Araújo.

As opiniões do entrevistado não expõe necessariamente as opiniões do tradutor.

O entrevistado é contundente em afirmar que a indústria das telecomunicações atua no sentido de dificultar a realização de pesquisas sobre o assunto, influenciando especialmente as decisões políticas. Também é notória a sua visão sobre como age atualmente a ICNIRP (Comissão Internacional de Proteção contra Radiações Não Ionizantes) e que possui grande influência nas decisões da OMS (Organização Mundial da Saúde da Organização das Nações Unidas) no tocante às recomendações de exposição humana.

O texto original utiliza extensivamente o termo “radiação” para se referir aos campos eletromagnéticos gerados por telefones celulares e estações de telefonia. O termo “radiação” pode ser confundido por alguns como sendo a energia emitida por fontes radioativas (radiação ioniozante) cujos efeitos são devastadores no organismo humano, desta maneira o tradutor empregou sempre e por conta própria o termo “radiação eletromagnética” no intuito de caracterizar a informação como sendo o campo eletromagnético. Outras notas do tradutor são inseridas no texto e nominadas pela abreviação “n.t.”.

Segue a entrevista.

O Dr. Dariusz Leszczynski é professor adjunto da Divisão de Bioquímica e Biotecnologia da Universidade de Helsinki (Finlândia, n.t.) e membro de um grupo de trabalho de 31 cientistas de 14 países constituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS) que classificou a radiação eletromagnética emitida por telefones celulares como agente possivelmente cancerígeno. Em conversa com Maitri Porecha (do jornal eletrônico indiano DNA Índia), o Dr. Leszczynski revela como as principais operadoras de telefonia celular e fabricantes de aparelhos  estão retirando o financiamento da investigação, levando ao encerramento de laboratórios que estudam os efeitos dos campos electromagnéticos de radiofrequência como os emitidos por celulares e estações de telefonia celular (em português usual ERB – Estação Rádio Base, n.t.).

Pergunta 1 - Como a radiação eletromagnética do telefone celular foi categorizada no grupo de classificação cancerígena 2B da IARC (Agência Internacional de Pesquisa do Câncer) da OMS (Organização Mundial da Saúde)?

Resposta: O número de assinantes de telefonia móvel no mundo é estimado em 5 bilhões de usuários. Com a crescente preocupação sobre os efeitos adversos à saúde, em 2010, a IARC convidou trinta e um especialistas para avaliar as evidências envolvendo o potencial cancerígeno da radiação eletromagnética emitida pelo telefone celular. Os especialistas se reuniram na sede da IARC em Lyon, França, em uma reunião que durou 12 dias em 2011. Os especialistas compartilharam a complexa tarefa de analisar os dados de exposição, os estudos de câncer em seres humanos, os estudos de câncer em animais de laboratório e outros. Grupos trabalharam separadamente e em conjunto para peneirar muitas centenas de estudos científicos. Após deliberações intensas, nós concordamos com o grupo de classificação 2B.


Pergunta 2 - Por um lado, operadoras de telefonia celular e demais partes interessadas da indústria dizem que a radiação do telefone celular não causa câncer, por outro lado, os moradores ou ativistas postulam um ponto de vista de precaução, dizendo que ele pode causar câncer. Por que não há clareza?

Resposta: A classificação da IARC-OMS da radiação eletromagnética do telefone celular é deturpada pela indústria. A classificação da radiação do telefone celular no grupo 2B como um "possível cancerígeno para humanos" significa que não há estudos suficientes que indicam que ele pode causar câncer e que precisamos urgentemente de mais pesquisas para esclarecer esta questão. A evidência mais forte de que poderia estar causando o câncer vem de três estudos epidemiológicos. Em 2011, dois conjuntos de estudos estavam disponíveis: projeto Interphone da União Europeia e uma série de estudos do grupo de Lennart Hardell da Suécia. Recentemente (em 2014) o estudo CERENAT da França indicou que pessoas que utilizam telefones celulares por mais de dez anos e durante meia hora por dia têm um risco maior de desenvolver câncer no cérebro. Na verdade agora a evidência é suficiente para considerar a radiação do telefone celular como um agente cancerígeno provável - Grupo 2A na escala do IARC de carcinogenicidade. 

Pergunta 3 - Você poderia descrever o seu trabalho sobre a radiação eletromagnética do telefone celular? Você descobriu que tem efeitos nocivos sobre a saúde humana e se sim, de que maneira isto ocorre?

Nossa pesquisa mostrou que as células humanas expostas em laboratório à radiação do telefone celular ativa uma série de reações bioquímicas conhecidas como "resposta ao estresse", o que significa que as células vivas reconhecem a radiação do telefone celular como um agente potencialmente prejudicial. Respostas ao estresse são sinais de que se pretende (o organismo, n.t.) proteger a célula viva de qualquer dano potencial. No estudo de 2008 conduzido por nós, uma pequena área da pele do antebraço humano de dez voluntários foi exposto ao sinal de GSM (GSM é uma das tecnologias de telefonia celular, n.t.) durante uma hora. Depois disso, amostras da pele exposta e não exposta foram coletadas e utilizadas para "análise proteômica”. Nesta análise todas as proteínas das amostras de pele foram extraídas e quantidades de diferentes tipos de proteínas de amostras de pele expostas e não expostas foram comparados. Após a análise de proteínas (cerca de 580), foram identificadas oito proteínas que foram afetadas de forma estatisticamente significante (pela exposição aos campos eletromagnéticos, n.t.).  Determinou-se que os valores de várias proteínas foram mudando após a exposição. Depois conduzir este estudo piloto em dez voluntários pretendia-se realizar um estudo maior, com 100 voluntários a partir de 2009. Este estudo não foi iniciado devido à falta de financiamento e oposição dos representantes da indústria de telecomunicações. 

Pergunta 4 - Por que o governo não sancionou fundos? O que aconteceu?

Resposta: Meus estudos em laboratório sobre os efeitos da radiação eletromagnética do telefone celular sobre a saúde humana começaram em 1999, meu laboratório, que era administrado pelo governo foi fechado em 2013 devido à falta de financiamento. Fabricantes de celulares e operadoras de telefonia na Finlândia se opuseram em grande escala aos estudos de efeitos em humanos. Recebemos doações do governo para realização dos estudos, mas, apesar de fazer progressos positivos na investigação nosso financiamento foi interrompido. Fomos afastados das fontes de financiamento e a  indústria de telecomunicações foi contra os estudos.

Embora a maior parte do financiamento para tais projetos de pesquisa consiste de dinheiro dos contribuintes e a indústria representa apenas uma parte do dinheiro, o conselho da indústria é altamente valorizado durante sanção de fundos por parte do governo.

Pergunta 5 - Quanto foi gasto durante os últimos 15 anos e quanto seria necessário para concluir o seu trabalho?

Resposta: Eu estava trabalhando em efeitos de radiação eletromagnética do telefone celular para a Autoridade Finlandesa de Radiação e Segurança Nuclear. Meu grupo de pesquisa gastou durante o período de 15 anos mais de um milhão de euros. Algumas pessoas na burocracia finlandesa decidiram que a investigação fundamental deve ser feita em universidades e laboratórios de pesquisa básica, assim, institutos administrados pelo governo foram fechados em uma tentativa de economizar dinheiro em 2013. O estudo de 2009 foi planejado para durar cerca de três anos e implicou angariar 100 voluntários humanos. Havia uma possibilidade muito real de assegurar o financiamento do programa de investigação através da União Europeia, mas o meu grupo de pesquisa não estava autorizado.  Para continuar o estudo abruptamente interrompido em seres humanos, seria necessário algo próximo de um quarto de milhão de euros em financiamento. A indústria oferece empregos para as pessoas e, portanto, influencia as decisões políticas. A indústria nos vem negando financiamento. Para realizar este tipo de estudo humano voluntário é necessário pessoal qualificado, laboratórios e financiamentos, os quais não tenho atualmente. 

Pergunta 6 - Você acredita que os padrões estabelecidos pelo Ministério Indiano de Telecomunicações em setembro de 2012 em 450 miliwatts/metro quadrado (900 MHz) - (limite de exposição humana de 0,450 W/m2 na frequência de telefonia de 900 MHz, n.t.) - para o campo eletromagnético (EMF) o que é um décimo do que é prescrito pela ICNIRP, é suficiente para o governo afirmar que 95% das ERBs estavam abaixo das normas revisadas de 0,450 W/m2? Além disso, quando a maioria ERBs possuem níveis de emissão muito inferiores aos limites permitidos qual é a lógica por trás do Ministério das Telecomunicações em reduzir os níveis de exposição de 4,5 W/m² para 0,450 W/m² ?

Resposta: A ICNIRP (Comissão Internacional de Proteção contra Radiações Não Ionizantes, n.t.) é uma organização de cientistas que alegam ser independentes em suas opiniões científicas. No entanto, há um grande problema – a ICNIRP seleciona seus membros com práticas parecidas com um "clube privado". Os atuais membros da ICNIRP selecionam os novos membros. Este modelo resulta em que todos os membros da ICNIRP têm a mesma opinião sobre os perigos da radiação eletromagnética gerada pelo telefone celular. Quando todos os cientistas da ICNIRP tem a mesma opinião, não há necessidade de debate científico - há apenas um consenso. Este não foi o caso na avaliação da IARC da OMS, onde os cientistas com diversas opiniões, muitas vezes opostas foram convidados.

As recomendações da ICNIRP para as emissões de radiação eletromagnética de celulares e ERBs podem não ser suficientes para proteger as pessoas. A classificação da IARC sobre a radiação eletromagnética do telefone celular como um possível agente cancerígeno invalida as reivindicações de proteção dos atuais padrões de segurança da ICNIRP. Em estudos epidemiológicos avaliados pela IARC (Projeto Interphone e Hardell) e publicados após avaliação da IARC (CERENAT), os participantes adultos avaliados utilizaram telefones celulares comuns disponíveis no mercado. Estes telefones celulares foram construídos para cumprir as recomendações de segurança da ICNIRP. Entretanto, o uso intenso de tais telefones"ICNIRP-seguros", por um período de mais de 10 anos levou a um aumento do risco de câncer no cérebro. Isso significa que as normas de segurança atuais não protegem suficientemente os usuários de telefones celulares e isso também lança uma dúvida sobre a validade das normas de segurança estabelecidas ERBs.

Do que tenho visto a partir de fotos da Índia, como também do que eu vi ao visitar a Índia, existem inúmeras situações em que ocorrem aglomerações de antenas em massa. Deve ser examinado se tais agrupamentos cumprem as normas indianas atuais. Cabe aos políticos e aos governos locais garantirem que as normas de segurança locais sejam atendidas e avaliar se as normas de segurança atuais são questionáveis.


Pergunta 7 - Algumas escolas australianas estão proibindo o uso de redes Wi-Fi, qual é a lógica por trás deste tipo de medida?

Resposta: Há uma discussão na Austrália, Canadá, Estados Unidos e Europa sobre a possibilidade de danos causados pelos campos eletromagnéticos gerados por redes Wi-Fi. Alguns diretores de escolas estão proibindo o uso de redes Wi-Fi devido à pressão dos pais das crianças. Movimentos de pais preocupados com o uso de redes Wi-Fi nas escolas são, em alguns casos, muito fortes. A radiação eletromagnética das redes Wi-Fi é semelhante a emitida por telefones celulares e ERBs, que foram classificadas como "possível" agente cancerígeno.

Podemos estar legitimamente preocupados com o que poderia acontecer com as crianças que passam de sete a oito horas continuamente expostos à radiação eletromagnética das redes Wi-Fi nas escolas. É uma medida de precaução responsável proibir redes Wi-Fi nas escolas. Há lugares onde o fornecimento de internet com fio não é possível, como em estações ferroviárias ou aeroportos, mas nas escolas é possível o uso de internet por cabo. Não há nenhuma necessidade real para a presença de redes Wi-Fi nas escolas.

Em outros lugares, onde a internet com fio não é viável, também é possível introduzir medidas preventivas. Em aeroportos ou estações ferroviárias existem espaços fechados onde as pessoas podem fumar sem expor outras à fumaça. Algo semelhante pode ser feito para fornecer conectividade Wi-Fi em áreas públicas.

Pergunta 8 -  A OMS está trabalhando em um novo relatório que resume os riscos para a saúde dos campos eletromagnéticos de rádio frequência, a ser publicado no próximo ano? O que a comunidade científica espera do relatório? Como também, você acha que agora há provas suficientes após o lançamento do estudo epidemiológico francês em 2014 que a classificação carcinogênica da radiação do telefone celular deve ser deslocada do Grupo 2B para o Grupo 2A ou Grupo 1?

O relatório da OMS foi adiado por dez anos enquanto se aguardavam os resultados do projeto Interphone, e posteriormente, para a avaliação da IARC de carcinogenicidade. O relatório da OMS vai analisar todos os efeitos da radiação eletromagnética, possivelmente, a fertilidade em humanos e outros problemas de saúde, não só do câncer.

Cientistas da ICNIRP estão envolvidos no relatório da OMS e, portanto, não se pode esperar que as conclusões do novo relatório irão diferir substancialmente do que a ICNIRP  diz atualmente.

O estudo epidemiológico recente CERENAT (francês) oferece, em conjunto com o projeto Interphone e com os estudos de Hardell oferecem evidências suficientes para considerar a radiação do telefone celular como um carcinógeno provável - Grupo 2A na escala do IARC de carcinogenicidade.


Pergunta 9 - Recentemente a indústria (de telecomunicações indiana, n.t.) iniciou uma campanha afirmando que a radiação das antenas de celulares (ERBs, n.t.) e telefones celulares não representa perigo. Eles trouxeram pesquisadores como o Dr. Mike Repacholi, o ex- coordenador da unidade de radiação e saúde ambiental da OMS, que afirmou que não há riscos para a saúde devido à radiação eletromagnética de ERBs e telefones celulares. Você concorda com suas declarações?

Resposta: A indústria gosta de chamar cientistas que endossam o seu produto e dizem que ele é seguro. Assim, o Dr. Repacholi visitou a Índia e falou publicamente sobre a segurança de telefones celulares e ERBs. Não concordo com o Dr. Repacholi. Ele diz que não temos e não teremos, no futuro, problemas de saúde devido à radiação eletromagnética emitida por telefones celulares e ERBs. Em minha opinião, a evidência científica ainda é insuficiente para dizer que a radiação eletromagnética do telefone celular é inofensiva. Precisamos de melhor investigação e, por enquanto, a implementação do princípio da precaução na União Europeia, até que haja mais clareza sobre o assunto.


Notas adicionais:

O Dr. Dariusz Leszczynski mantém o blog http://betweenrockandhardplace.wordpress.com/


Sobre o tradutor: Ricardo Luiz Araújo (ricardo@emfield.com.br) é brasileiro, engenheiro eletricista especialista em campos eletromagnéticos e interferência eletromagnética, foi pesquisador do instituto Lactec e atualmente é diretor na empresa EMField Engineering. Mantém o blog http://camposeletromagneticos.blogspot.com.br/ sobre efeitos dos campos eletromagnéticos na saúde humana e também a página da EMField Engineering no Facebook: https://www.facebook.com/emfieldbrasil. Vem trabalhando com campos eletromagnéticos há 16 anos, participou de projetos de pesquisa sobre o assunto e mediu neste período os campos eletromagnéticos de mais de 3000 antenas de telefonia celular e mais de 500 subestações, usinas e linhas de transmissão de energia em alta tensão.

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